quarta-feira, 25 de março de 2015

utopia nua


envolvidos demais para aprofundar
rendidos demais para reagir
coagidos demais para coexistir
encarcerados demais para desacorrentar
perdidos demais para encontrar
corpos demais para enclausurar
absortos demais para atentar
raivosos demais para acariciar
estranhos demais para reconhecer
humanos demais para renascer
corpos mortos demais para desnudar
mascarados demais para encarar
vivos demais para adormecer
infelizes demais para esquecer
passado demais para o presente viver.

segunda-feira, 9 de março de 2015

como ser o que (não) sou?

estamos numa profunda contradição de correntes de pensamento e isso é ótimo!

por um lado defendemos nossos lugares, direitos e especificidades, mas por outro, defendemos que não temos locais específicos para cada um, que não existe nada específico a não ser determinado pela própria construção social que nos rege.

defendemos a diversidade, a subversão dos padrões, mas lá estamos nós moldando os nossos corpos de acordo com o que a mass media declara como bonito, aceitável...

na real, bem na real mesmo, nós devemos, de uma vez por todas, assim como eu tenho dito sempre e foucault já disse certa vez, acabar com o perigo da repetição.


criar e ditar novos padrões é fazer exatamente o mesmo que tentamos subverter.

ou isso ou aquilo, ou não isso e nem aquilo... somos o vai e vem e estamos em um presente falso, em um entre-espaço que ocupa um lugar suspenso que se projeta no devir das coisas, do tudo, das palavras... se somos e estamos no devir, logo, vamos parar, de uma vez por todas, de reproduzir o que querem que reproduzimos. o devir é para além do estático, é o que está por vir, mas estamos impedindo que a diferença venha, que seja feita, que esteja no nosso acontecer diário.


ser gorda é opção, mas ninguém engorda, ser peluda é opção, mas ninguém tem pelos, aceitar as gordinhas, negar que existem feias, mas vive com a cara cheia de maquiagem, chamar a mina de puta prq ela atrapalhou a sua noite, devassa prq quis se divertir, boba e inocente prq não usou os seus atributos pra conquistar o chefe e um salário maior, quem sabe um carro ou uma bolsa LV.


livre porém marcada pela referência masculina que te faz crer na igualdade...

eu não quero ser igual ao homem, não quero ser igual a mulher, eu quero ser desnudada por todos os discursos que nos marcam como gado por uma questão biológica e anatômica que não me representa. eu não sou o meu sexo e nem uma nomenclatura que determinaram.

eu não sou o clichê mas aprendi a ser e sofro por não ser prq nunca serei a princesa loira, magra, miss e com marido rico de carrão.

quero poder não me preocupar com celulites (coisa normal, sobretudo em corpos que desejaram parir). nossa pele que nos encapsula cresce, cede, rasga, perde a elasticidade... isso é normal, talvez, até, natural (será?), se podem me determinar como mulherzinha por uma questão anatômica, ligada ao natural como nasci, prq negar a existência do que há no meu corpo?


se meus cabelos não crescem ou crescem, o que fazer? pq tanta exigência em sermos sereias, em termos cintura fina, em termos um decote farto?

prq o prato principal é a noiva e a sobremesa é a amante? prq a voz sempre sensual, prq sempre envolvente e pronta para o sexo? prq a flor delicada pra sociedade? prq sempre cheirosa? cheirosa... o que é isso?

prq a mulher está sempre em cena, mas nunca representada, sempre submissa, em terceiro lugar, como objeto sexual e escrava do homem?

se tudo isso e muito mais não é machismo, se o mundo não é machista, se o medo que eu sinto ao andar em rua deserta e repetir enumeras vezes "essa rua é perigosa, posso ir sozinha?" não é machismo e cultura da violência do estupro, eu, sinceramente, não sei o que é. não sei o que é não ter vergonha do meu corpo, não sei o que é acordar e não precisar me maquiar, não sei o que é ir em uma festa com roupas "não atraentes", "padrões", pra não "chamar atenção", não sei o que é não ser puxada pelo braço com força bruta em festas de carnaval e afins, não sei o que é me chamarem de frigida só prq não quis beijar um homem ou ser chamada de mal comida prq tb não quis beijar outro cara... eu não sei o que é ser ouvida ou atendida primeiro em uma mesa, não sei o que é poder falar e ser ouvida, sem que procure o homem ao lado prq ele tem credibilidade e opinião, não sei o que é poder argumentar, não sei o que não é ser colocada, diariamente, em segundo lugar.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

metamorfose!

mudei de ideia por completo do que idealizei ontem!
o que penso agora não é mais o que pensei agora pouco.
estou entre o lugar que não localizo
o lugar deslocalizado e descentralizado subverte a ordem do linear
deus
meu
as cabeças rolaram no desespero do não-ser
o ser se descongelará da inércia determinada do eu-contínuo
o único morreu
o outro nasceu [?]
!


como desnudar?

prq nos incomodamos? o que nos incomoda? prq o outro, no outro e o do outro tanto nos incomoda? prq o nosso eu não nos incomoda tanto quanto o eu do outro?
prq isso incomoda e o aquilo não incomoda? qual é ou quais são os mecanismos de seleção ao escolhermos o que incomodará ou não incomodará?
o que "determina" as nossas inquietudes e, de certa forma, as nossas defesas e resistências?
e onde somos subalternos para além da subalternidade que nos abraça em questões culturais e afins?
e, nesse enlaço e embalo, como subverter as escolhas que não são nossas mesmos impregnadas em nós e no outro?
COMO DESNUDAR?
como atingir a palavra lá no fundo, no fundo fundo fundo onde ela é prisioneira?

pensando em Derrida e em outros que nos ajudam a pensar para além do pensar-pequeno.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Desejou partir

Segura aqui a minha mão
Olha como aqui de cima tudo parece tão menos importante
De cima a rainha não precisa do rei
Não existem peões nem torres
As fortalezas se dissiparam no ar junto com toda dor incoerente
Veja
o tudo não é mais verdade
o nada não é mais o nosso ponto de partida
nem o nosso lugar comum

Lá embaixo é tudo tão estranho
Lá eu só quero fugir pra dentro de mim
De mim, das minhas entranhas estranhas
Mergulhar no profundo inexistente dos seus olhos esverdeados

E eu só quero ir pra casa
Ir pra bem longe de nós
Bem longe do que fora uma casa
Denominar o (meu) mundo "casa"
Libertar o incômodo andarilho que me eleva
Enraizar meus pensamentos nômades e ser porto de passagem
E ser ponto de partida

E partir pra não me encontrar





sexta-feira, 3 de outubro de 2014

um brinde!

de que vale a vida se não for pra viver de goles em goles de paciência? do respirar fundo e recomeçar segundo a segundo?
a vida é o resumo do movimento, é o eterno devir dos sentimentos e pulsões.
nossos desejos são gotículas de vida.
cada vida compõe a areia da praia imortal, que a cada jorrada de vento move-se e constrói-se em outro canto de imensidão.
somos todos nossas vossas vidas.
de gole, de grão, de pulsão de morte que almeja o ser vivente que nos habita.
as explosões, os cliques elétricos em borbulhas no escondido sistema límbico.
a vida! um brinde à vida! ao que somos e restamos de vida.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

adeus, ciência.

portanto
contudo
entretanto
que fique decretado
que se faz imprescindível
que seja intransferível
que é mister afirmar.

imperioso é dialogar
com o aprofundar dos tons irradiados
do cristal multifacetado
espelhado em mil reflexos desiguais.

desse modo
é possível analisar
destacar
que o destaque está no pôr-do-sol
que a ciência aqui já não se faz presente
que o corpo engessado tomou formas soltas e decolou
alçou voo desesperado
agarrado no caderno de páginas em branco

desejou partir
e
partiu