sábado, 23 de novembro de 2013

boca

essa intensa eterna vontade de não ser.
essa profunda vocação para o torto.
o torto me atrai. o confuso, o difuso das luzes apagadas derramadas pelo chão.
o parafuso que não encaixa, a peça que não tem encaixe, o solto.
do amoníaco de augusto, do fétido e do ridículo. do inferno de sartre, da mulher que não é, mas se torna, eu NÃO SOU.
violenta vontade de abrir a boca e deixar rasgar todos os dentes pro escuro e saltar. me soltar dentro disso que eu nãosou.
saltar dentro de mim e sumir afundada afogada nas minhas entranhas vermelhas, sangrentas, chorosas, profanadas pelo ácido mundo que me ingere.
antropofagia.
o mundo me engole
eu engulo o mundo
e da ordem do discurso aos versos íntimos sem ideologia que brotam do cemitério enterrado no meu coração, nós nos tornamos o que não somos.
eu, meu oceano incompreendido, meu barco desolado, onda do mar que bate em movimentos repetitivos nas pedras do cais.
lido com a morte como o futuro lida comigo. as rugas nascem nas minhas mãos como raízes de árvores centenárias que tragam o solo e fundos terráqueos.

o ser e o nada.
o horror.
a náusea
eu sou como o verme que à vida declara guerra,
anjos.
de tanta rutilância, carbono e amoníaco, embriaguei-me de enjoo e apatia.

um brinde,
ao
que
não

sou.

o cérebro em pedaços recria o que mente pra sua mente.
o inconsciente que se esconde no reflexo da verdade blindada fez de você um pedaço de verme operário.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

cale-se.

mulher, não beba.
não xingue, jamais-beba.
cale-se.
você
fala
demais.
pernas abertas, feche-as.
afasta de você esse cálice.
bebe, fala, histérica.
d
e
s
e
s
p
è
r
o.
ao piano, aos versinhos,
às cartas de amor, às florzinhas do jardim,
ao fútil.
volátil.
ao homem, a mim, O sol,
o ardor, o útil, o sabor.
abra suas pernas pra mim, babe.

traga o cálice.
eu te bebo,
mulher.


domingo, 6 de outubro de 2013

perda de turgescência dos tecidos foliares e das partes suculentas dos ramos.

ela disse não.

seu corpo todo tremeu. franziu. estremeceu.

MENTIROSA.
seu não é feito de culpa. seu confeito é pecado. ERRADO.

no fundo do copo, o corpo disse sim.
deu de ombros.
- não.

e permaneceu não, ão, não agindo como não.

nos conformes do sim eu digo não.
culpa, vergonha, flor vermelha amputada, murcha e castrada:

não.


chuviscos.

chove, vê?
chove.
chove lá fora
chove aqui dentro
chove o choro que chora em mim.
me afogo no rio que curva as curvas do meu corpo
chove líquido
chove movimento
chove.

vê.
entre as bifurcações da vida, escolhemos o oposto dos nossos. o gotejar das chuvas que passaram por nossas vidas pingam no ritmo dos corações quase-pulsantes. um pingo ali, uma gota aqui, um jorro de face aqui. em algum momento do soluçar o coração pulsa, como que se lembrasse que para chorar precisa pulsar.

quanto mais chove
mais jorra

quanto mais jorra
mais chora

chove,
vê?

sábado, 5 de outubro de 2013

incorpora II.

e na carne crua do meu peito seu
coração pulsou 
pulou
estremeceu. 
tiro do corpo a ferida aberta
choro
culpo
penso
repenso. 
corpo nu, cru, deslocado.
engatinha no paraíso das crenças não suas
desatina.
i n c o r p o r a!
veste-se das vestes de seu corpo
nu.

EM CORPO

deslizei a mão pelo meu corpo, como que por quem procura algo.
fui conhecendo as curvas do meu hospedeiro - condenado - encolhido pela vergonha do eu. meu. meu...eu...
era como se passar [de] as mãos pelo entorno do corpo, ele, por ele mesmo e ali, se encorporasse, enchesse, tomasse forma. descobrisse pesar, ser eu de ele mesmo. empoderando-se osso por osso, pele por pele.

eu, corpo, meu corpo. vazio, cheio, curvado, em posição fetal.
curva escura gruta, esconderijo das flores vermelhas e dos segredos profundos.
não deve ser segredo, este teu corpo. apronte-se, mostre-se, seja! seja-seu-eu.
meu?
corpo, meu quarto, hospício de mim.
hospitaleiro, hospedeiro, irregular em curvas justapostas.
tantos segredos na alma que no corpo as marcas foram feitas.
a culpa pediu desculpas, afastou-se para fazer do tabu simples sorrir torto de criança leve.
santo, corpo santo; baixa, entrelaça. tira essa cruz do pescoço e dele faz fala.

i n c o r p o r a !
baixa em si, de ti, entidade do corpo seu.
você, corpo, você é todo meu.

domingo, 29 de setembro de 2013

consciente.

durmo consciente.

durmo ciente de que horas a mais ou horas a menos só podem ter um destino: o nada.
mexo, remexo, cubro todo o corpo como se o frio do sono da morte pairasse sobre mim, mas está calor. o coração pulsa, sinto alguma dessas veias que ficam nas mãos pulsando no meu rosto. ainda não morri, pensei, pela milionésima vez. era prazeroso constatar o óbvio, como se houvesse, ainda, algum controle sobre minha própria vida.
com os olhos cerrados, inchados por culpa da maquiagem não retirada da noite passada, abro-os devagarzinho, protegendo minha retina da luz solar. me parece tão infernal, agora.
olho, observando os lados. pesquiso cada esquina do quarto. nada mudou, está tudo onde exatamente deixei. deixamos.
as roupas pelo chão, meias sem pares, par seu sem par. irônico. meu coração não tem seu par, ele é um par de? de...meias? meias só funcionam se estiverem com seu par.
pisco os olhos como se estivesse me dando um tapa. falar besteiras enquanto se dorme é quase um pecado. é quase não, é um pecado. uma agenda apertada, sem horários para cochilos ou almoços elaborados, até mesmo assistir um filme qualquer na sessão da tarde, mas me dou o luxo de dormir, dormir, dormir. pensar besteiras enquanto durmo...que desperdício! 
durmo consciente da derrota que minha consciência me traz. corpos não habitam, corpos sobrevivem. eu sobrevivo habitando o leito do mundo que me rodeia, fugindo da luz do sol que a pele queima. durmo consciente da fuga de mim. habito o mundo enquanto o sono profundo habita aqui.