por um lado defendemos nossos lugares, direitos e especificidades, mas por outro, defendemos que não temos locais específicos para cada um, que não existe nada específico a não ser determinado pela própria construção social que nos rege.
defendemos a diversidade, a subversão dos padrões, mas lá estamos nós moldando os nossos corpos de acordo com o que a mass media declara como bonito, aceitável...
na real, bem na real mesmo, nós devemos, de uma vez por todas, assim como eu tenho dito sempre e foucault já disse certa vez, acabar com o perigo da repetição.
criar e ditar novos padrões é fazer exatamente o mesmo que tentamos subverter.
ou isso ou aquilo, ou não isso e nem aquilo... somos o vai e vem e estamos em um presente falso, em um entre-espaço que ocupa um lugar suspenso que se projeta no devir das coisas, do tudo, das palavras... se somos e estamos no devir, logo, vamos parar, de uma vez por todas, de reproduzir o que querem que reproduzimos. o devir é para além do estático, é o que está por vir, mas estamos impedindo que a diferença venha, que seja feita, que esteja no nosso acontecer diário.
ser gorda é opção, mas ninguém engorda, ser peluda é opção, mas ninguém tem pelos, aceitar as gordinhas, negar que existem feias, mas vive com a cara cheia de maquiagem, chamar a mina de puta prq ela atrapalhou a sua noite, devassa prq quis se divertir, boba e inocente prq não usou os seus atributos pra conquistar o chefe e um salário maior, quem sabe um carro ou uma bolsa LV.
livre porém marcada pela referência masculina que te faz crer na igualdade...
eu não quero ser igual ao homem, não quero ser igual a mulher, eu quero ser desnudada por todos os discursos que nos marcam como gado por uma questão biológica e anatômica que não me representa. eu não sou o meu sexo e nem uma nomenclatura que determinaram.
eu não sou o clichê mas aprendi a ser e sofro por não ser prq nunca serei a princesa loira, magra, miss e com marido rico de carrão.
quero poder não me preocupar com celulites (coisa normal, sobretudo em corpos que desejaram parir). nossa pele que nos encapsula cresce, cede, rasga, perde a elasticidade... isso é normal, talvez, até, natural (será?), se podem me determinar como mulherzinha por uma questão anatômica, ligada ao natural como nasci, prq negar a existência do que há no meu corpo?
se meus cabelos não crescem ou crescem, o que fazer? pq tanta exigência em sermos sereias, em termos cintura fina, em termos um decote farto?
prq o prato principal é a noiva e a sobremesa é a amante? prq a voz sempre sensual, prq sempre envolvente e pronta para o sexo? prq a flor delicada pra sociedade? prq sempre cheirosa? cheirosa... o que é isso?
prq a mulher está sempre em cena, mas nunca representada, sempre submissa, em terceiro lugar, como objeto sexual e escrava do homem?
se tudo isso e muito mais não é machismo, se o mundo não é machista, se o medo que eu sinto ao andar em rua deserta e repetir enumeras vezes "essa rua é perigosa, posso ir sozinha?" não é machismo e cultura da violência do estupro, eu, sinceramente, não sei o que é. não sei o que é não ter vergonha do meu corpo, não sei o que é acordar e não precisar me maquiar, não sei o que é ir em uma festa com roupas "não atraentes", "padrões", pra não "chamar atenção", não sei o que é não ser puxada pelo braço com força bruta em festas de carnaval e afins, não sei o que é me chamarem de frigida só prq não quis beijar um homem ou ser chamada de mal comida prq tb não quis beijar outro cara... eu não sei o que é ser ouvida ou atendida primeiro em uma mesa, não sei o que é poder falar e ser ouvida, sem que procure o homem ao lado prq ele tem credibilidade e opinião, não sei o que é poder argumentar, não sei o que não é ser colocada, diariamente, em segundo lugar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário