durmo consciente.
durmo ciente de que horas a mais ou horas a menos só podem ter um destino: o nada.
mexo, remexo, cubro todo o corpo como se o frio do sono da morte pairasse sobre mim, mas está calor. o coração pulsa, sinto alguma dessas veias que ficam nas mãos pulsando no meu rosto. ainda não morri, pensei, pela milionésima vez. era prazeroso constatar o óbvio, como se houvesse, ainda, algum controle sobre minha própria vida.
com os olhos cerrados, inchados por culpa da maquiagem não retirada da noite passada, abro-os devagarzinho, protegendo minha retina da luz solar. me parece tão infernal, agora.
olho, observando os lados. pesquiso cada esquina do quarto. nada mudou, está tudo onde exatamente deixei. deixamos.
as roupas pelo chão, meias sem pares, par seu sem par. irônico. meu coração não tem seu par, ele é um par de? de...meias? meias só funcionam se estiverem com seu par.
pisco os olhos como se estivesse me dando um tapa. falar besteiras enquanto se dorme é quase um pecado. é quase não, é um pecado. uma agenda apertada, sem horários para cochilos ou almoços elaborados, até mesmo assistir um filme qualquer na sessão da tarde, mas me dou o luxo de dormir, dormir, dormir. pensar besteiras enquanto durmo...que desperdício!
durmo consciente da derrota que minha consciência me traz. corpos não habitam, corpos sobrevivem. eu sobrevivo habitando o leito do mundo que me rodeia, fugindo da luz do sol que a pele queima. durmo consciente da fuga de mim. habito o mundo enquanto o sono profundo habita aqui.
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